Não dá para dizer que o Brasil vive uma redescoberta da música pop. O gênero sempre esteve presente na cultura brasileira, mesmo em meio às suas constantes mudanças ou reciclagens. Ainda assim, Marina Sena é uma das vozes de uma nova geração de artistas com trabalhos sempre interessantíssimos. Em seu terceiro álbum, Coisas Naturais, a artista prova que MPB é pop!
Lançado após Vício Inerente (2023) e De Primeira (2021), o novo disco fecha a trilogia inaugural da cantora. Com treze faixas, Coisas Naturais tem produção assinada por Marina, Gabriel Duarte e Janluska. O repertório amplia referências já estabelecidas nos álbuns anteriores — há uma presença constante da água, do mar (afinal, não há outra pessoa no Brasil que queira mais entrar no mar do que ela), e da sensualidade como linguagem estética. Colaborações com artistas como Gaia e Nenny adicionam um toque latino, que aproxima o trabalho de uma cena pop mais ampla, com potencial de exportação.
A faixa-título, que abre o álbum, funciona como uma espécie de manifesto sonoro. Os elementos que evocam a capoeira na introdução rapidamente evoluem para uma sonoridade mais envolvente, sensual e dançante — marca registrada da artista.
“Numa Ilha”, primeiro single do álbum, mantém o padrão do que se espera de Marina Sena: um pop ensolarado, com forte identidade visual e melódica. Já faixas como “TOKITÔ” (parceria com Gaia e Nenny), “SENSEI”, “Combo da Sorte” e “Carnaval” são visivelmente a cota comercial para aquilo que tem potencial em mercados internacionais, sobretudo na América Latina.
Entre as surpresas do álbum, destaca-se “Desmistificar”, uma das faixas mais enérgicas do conjunto. Combinando percussão frenética e elementos eletrônicos, a canção ganha potência no arranjo, especialmente nos segundos finais, quando atinge seu clímax instrumental. Outra faixa que merece atenção é “Anjo”, que se apoia nos vocais cheios de falsete e arranjo etéreo.
A influência de Gal Costa — declaradamente uma das maiores referências de Marina — é perceptível em faixas como “Mágico”, que remete ao espírito de A Pele do Futuro (2018), penúltimo álbum de estúdio da cantora baiana, sobretudo no arranjo. Inclusive, a capa do disco traz uma imagem de Gal como um easter egg, reforçando a homenagem.
Encerrando o álbum, a balada “Ouro de Tolo” trata de superação e autorreconhecimento após o fim de um relacionamento. O trecho falado que aparece na parte final confere à faixa um tom confessional raro no pop atual — e remete à tradição de artistas que usam a canção como palco para o monólogo dramático.
Na música brasileira contemporânea, poucos nomes conseguiram consolidar uma identidade sonora tão distinta em tão pouco tempo quanto Marina Sena. Seus três álbuns funcionam quase como três partes de uma obra. O futuro trará o desafio do quarto álbum — um ponto de virada que costuma assombrar carreiras promissoras. Mas, por ora, Coisas Naturais confirma que é possível fazer pop no Brasil sem recorrer aos mesmos clichês comerciais do mercado.
Nota: 3/5 ⭐
⭐⭐⭐









