31 maio 2025

ALBUM REVIEW: Something Beautiful—A forma musical mais caótica de Miley Cyrus

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Poucas carreiras na música pop tiveram arcos tão inusitados quanto a de Miley Cyrus. Ex-estrela do agora extinto canal Disney, ela passou por fases que vão do pop chiclete ao country e ao hip-hop, sem nunca esquecer o rock. Seja qual for o estilo ou a fase, nunca foi exagero considerar Cyrus uma baita camaleoa da música contemporânea. Com Something Beautiful, lançado ontem, 30/05, a cantora apresenta um novo álbum visual ansiosamente aguardado por milhões de fãs atentos.

Trata-se de seu nono trabalho de estúdio, o primeiro desde Endless Summer Vacation (2023), projeto que lhe rendeu aclamação crítica, o primeiro Grammy da carreira e o maior sucesso comercial com o single Flowers. Segundo a própria cantora, Something Beautiful é influenciado pelo rock progressivo, em especial The Wall, do Pink Floyd — embora essa conexão se manifeste, na prática, em apenas um terço do álbum.

O disco é acompanhado de um filme com estreia prevista para 6 de junho no Festival de Tribeca, dirigido por Brendan Walter, Jacob Bixenman e a própria Miley e lançado em associação com a CBS/Sony Music, Live Nation e XYZ Films. Parte das músicas já têm videos publicados no YouTube.

Miley coassina todas as faixas, tanto na produção quanto na composição, ao lado de nomes como BJ Burton (conhecido por trabalhos com Charli XCX e Lizzo), Shawn Everett (Alabama Shakes, Kacey Musgraves), Michael Pollack (Justin Bieber, Selena Gomez, Jonas Brothers, Katy Perry) e mais um time de outros 12 colaboradores. O resultado é uma sonoridade robusta, onde guitarras distorcidas, sintetizadores retrô e beats orgânicos convivem em um caos conceitual e controlado.

A abertura, com um prelúdio vibrante e caótico, sugere que o álbum seguirá uma linha mais crua e roqueira. A sequência com a faixa-título, Something Beautiful, confirma: começa como um R&B e surpreende com um refrão barulhento, com vocais rasgados. Embora não seja minha faixa favorita, ela estabelece o clima de instabilidade emocional que perpassa todo o trabalho.

End of the World, coescrita com Michael Pollack (também coautor de Flowers), é um pop tradicional — algo que eu, pessoalmente, chamaria de feelgood bop. Não é de se espantar que a faixa esteja dominando as rádios atualmente.

O ponto de virada acontece a partir de Easy Lover, posicionada entre dois interlúdios que funcionam como divisores de ato. A segunda metade do álbum mergulha em uma sonoridade mais sintética, referenciando o pop oitentista e, sobretudo, o disco queer — em especial artistas como Sylvester, Pet Shop Boys, The Weather Girls e Madonna. A guinada estilística não apenas é coesa dentro do universo do disco, como também representa um dos momentos mais criativos da carreira recente da cantora.

O destaque absoluto dessa fase é Walk of Fame, que conta com a participação de Brittany Howard (Alabama Shakes). O contraste entre os timbres das duas artistas é explorado com maestria: Howard, geralmente associada a vocais graves e potentes, surpreende com agudos poderosos logo de cara. A música sintetiza bem o tom entre vulnerabilidade e grandiosidade que percorre o disco.

Pretend You’re God, uma das faixas mais sutis em termos de arranjo, remete a Justify My Love, da Madonna, em sua atmosfera minimalista e confessional. Trata-se da composição mais vulnerável, intimista e pessoal entre as treze faixas. Em contrapartida, Give Me Love, que encerra o trabalho, adota um tom mais idílico. Após doze faixas intensas — seja pela raiva, seja pela euforia —, ela oferece um final sereno, quase litúrgico, como o sol finalmente derretendo as nuvens carregadas de uma tempestade.

Something Beautiful não é, como alguns esperavam, um disco experimental no sentido mais radical do termo (e nada em sua discografia recente supera o caos criativo de Dead Petz nesse quesito). O que ele oferece é um retrato sensível de uma artista em processo de amadurecimento: alguém que já experimentou quase todas as formas de ser pop, e agora tenta costurar essas fases em algo coeso, mas ainda pulsante.

É um bom disco — corajoso, por vezes instável, mas sempre honesto. E se futuramente eu decidir revisitá-lo, é provável que volte direto à segunda metade, pois é a partir dela que Miley brilha como o homem gay em corpo de mulher que ela é.


Para Something Beautiful, um sólido 3,5/5

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Assim como qualquer pessoa da minha geração, eu vivi a mágica que foi aquela geração do Disney Channel que ocorreu entre 2007-2012, então naturalmente eu estava lá para viver a era Hannah Montana, então Can't Be Tamed Bangerz, Dead Petz, Younger Now, e agora, Something Beautiful. É uma sensação maravilhosa ver uma artista que nunca desaponta em entregar novos trabalhos e manter todo mundo ansioso para ver que tipo de coisa ela vai entregar agora. Seguiremos ansiosos pelo álbum visual que logo mais estreia!

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